quinta-feira, 19 de agosto de 2010

O que os líderes precisam ouvir?

Por Rafael Chiuzi

“Não são nossos genes em si que nos diferenciam um do outro, mas sim nossas diferenças exclusivas e a capacitação imunológica”.

Talvez não haja nada que líderes precisem ouvir e que ainda não tenha sido dito. No “Google”, a palavra “líder” tem quase 60 milhões de registros. Existem quatro fundamentos atuais para o exercício da liderança. E, já, curiosamente, ao digitarmos a palavra “liderança”, ainda no mesmo “Google”, os registros já caem para cerca de 5 milhões.

As quatro pernas da nova liderança estão assentadas na:

1) sensorialidade;

2) sensibilidade;

3) responsividade;

4) sensitividade.

Isto quer dizer que temos no mundo de hoje uma enxurrada de sensores que varrem o planeta de uma ponta à outra, rastreando, mensurando, informando o que seria inimaginável há poucos anos atrás. Nesta copa do mundo da África do Sul, passamos a saber, através de sensores modernos, a mancha de calor ocupada por um específico atleta, o que nos revela como ocupou o espaço físico do gramado, ao longo de uma partida.

Nesta copa do mundo sabemos o que um técnico vocifera sozinho através da precisão da leitura labial, e estamos “online” com o twitter do Kaká. Esta sensorialidade que invade e irá ser exponencialmente amplificada, amplia a nossa sensibilidade como seres humanos e corporações. Passamos a ver o que não víamos, escutar o que não escutávamos e sentir o que não percebíamos. Toda esta gigantesca interatividade macro e microscópica exige “responsividade”.

Isto quer dizer altíssima velocidade de resposta. Ficamos irritados com um email não atendido em poucos minutos. Perdemos negócios e oportunidades de ouro por não respondermos prontamente àquilo que os sensores internalizam do entorno para dentro das nossas organizações, e constatamos que aproximadamente 97% das empresas que tiram vantagens das inovações não são aquelas, ou aqueles que as criam, são os que imitam velozmente e adaptam inteligentemente esses inventos, ou um novo mix de inventos.

Por isso, voltando à copa do mundo, sentimos cansaço com a lentidão do nosso Dunga para mudar, interferir, trocar e responder. Essas três pernas anteriores nos exercitam para o 4º aspecto da nova liderança: sensitividade. Isto quer dizer capacitação objetivando a intuição. A antevisão, o “feeling” de onde o “acaso” estará para contarmos com ele. A não dúvida da imprevisibilidade, para atrairmos o que ainda não conseguimos decifrar como “sorte”. O futebol e a Copa do Mundo são lições gigantescas do encontro desse preparo com as leis do “acaso”.

As decisões terminam por ocorrer no imprevisto de um “drible”, no esconderijo camuflado de um toque de mão não percebido pelo árbitro, numa intuição de arriscar um chute da intermediária que conta com um raspar da cabeça de um defensor, que altera em um centímetro o direcionamento da bola e que termina por alojar-se no ângulo das traves. Os líderes do lado de fora do campo são vitais para o sucesso do lado de dentro dos gramados. E assim é também em toda a vida. Nas carreiras, empresas e na pessoalidade de cada um.

No universo corporativo somos cada vez mais “scorecard organizations”.

Métricas e mensurações. E isso clama por “take action organizations”. Gente que age e reage em altíssima velocidade. Na Copa do Mundo gostaria que a lentidão do Dunga, como um robusto e bom jeep Engesa 1986, o melhor jeep militar à sua época, perfeito para “off Road”, não defina o nosso insucesso.

Agora, precisamos ser fortes para o terreno fora de estrada e impecáveis nas pistas de corrida. O líder lento tem pouca chance de êxito. Nesta Copa do Mundo, o líder “Sol”, mais importante do que a equipe, termina cedo ou tarde por destruí-la. A França revelou esse “case” mal sucedido. Resta a incógnita da emotividade à flor da pele e de um carisma poderoso como de um Maradona, para demonstrar qual é a condição superadora que a “alma”, a paixão, por si só, conseguem fazer. A seu favor, Maradona é veloz. Sempre foi. Contra este estilo “speedy overplay”, os momentos de fúria contra as leis do destino podem significar a ruptura e a desgraça de toda a equipe. Prometeu sempre desafiará os deuses.

O que os líderes talvez ainda precisem ouvir é o que os geneticistas já sabem: não são nossos genes em si que nos diferenciam um do outro. Nossas diferenças exclusivas estão na nossa capacitação “imunológica”. Ou seja, como dialogamos com o entorno, e o que fazemos com as forças externas que atuam sobre nós. Traduzindo, isto seria a resiliência, as crenças, os valores, a alta capacitação operacional em si, a consciência superior com a obra, a causa – colocando-a acima de tudo e de todos, inclusive do seu próprio ego. É o drible. Talvez o que os líderes precisassem ouvir é que o seu maior inimigo é o seu próprio ego distraído, aquilo que o faz canalizar energias para o foco errado. Voltando ao “Google”, sistema imunológico tem apenas algo como 355 mil registros.

Assistiremos cada vez mais neste novíssimo mundo a vitória dos líderes que implementam liderança, convictos de que toda liderança é uma arte “fêmea”; e que desenvolvam competências imunológicas para interagir, escolher e manterem a si mesmos e às suas organizações, protegidos contra vírus, fungos e ataques de um entorno cada vez mais arquitetônico e entrelaçadamente complexos.

A consciência da luta generosa e ética, com significados e sentidos evolutivos não é nenhum conselho novo. Porém talvez seja um dos poucos que continuarão eternos.



Rafael Marcus Chiuzi é Psicólogo, mestre em psicologia da saúde pela Universidade Metodista de São Paulo, já ocupou cargos executivos em Recursos Humanos e atualmente atua como coach e consultor em comportamento organizacional. É Professor de Psicologia Organizacional e do Trabalho e Gestão de Recursos Humanos da Universidade Metodista de São Paulo.

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