sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Por que quatro anos?

Por Claudio de Moura Castro*

Por que os cursos superiores têm quatro anos de duração? Não é difícil entender que algumas ocupações são mais complexas e requerem preparação mais longa. Existem mais de 2.000 ocupações catalogadas no Brasil, cada uma com suas competências. Mas é no mínimo estranho que, de repente, saltemos do diploma médio para o superior de quatro anos sem nada no meio do caminho. Com centenas de ocupações de nível relativamente complexo, por que não haveria muitas que exijam mais que o médio e menos que quatro anos? Nos Estados Unidos e na Europa, há mais graduados de cursos de dois anos (ou menos) que de quatro anos. Argentina, Chile e Venezuela têm cerca de um terço de seus graduados em cursos curtos.

O Brasil é um retardatário, pois somente agora atinge 10% a matrícula superior em cursos mais curtos. Mas começamos a ter alternativas à ditadura dos quatro anos. Com a reforma em meados dos anos 90, cria-se o técnico pós-médio de um ano. Esse novo técnico compacta em um só ano o que era dado ao longo de três, quando era integrado ao ciclo médio. Pode ser feito em paralelo ao médio ou por quem já o terminou. Os cursos para tecnólogos e os seqüenciais estão sendo regulamentados em períodos de dois a três anos. Criou-se, portanto, uma escadinha natural, indo de cursos de um ano (os técnicos) ao outro extremo, de sete (medicina). Corresponde à idéia de que o pulo para o curso de quatro anos é uma descontinuidade artificial. Cada carreira requer certas competências, e o tempo que leva para adquiri-las não tem por que ser igual – muito menos quatro anos.

Na verdade, pesquisas feitas nos Estados Unidos mostraram que 20% dos novos empregos requerem ensino superior, embora a oferta de graduados seja de 28% para essa faixa. Em contraste, 65% das ocupações exigem cursos curtos, apesar de somente 32% dos estudantes chegarem ao mercado com essa formação. Em outras palavras, o mercado mais dinâmico é o das formações curtas, não o das tradicionais, de quatro anos. Não temos estudos similares no Brasil, mas aqui a situação deve ser parecida. Ao crescer 270% em 2001, os cursos seqüenciais mostraram que o país não é tão diferente.

Isso se deve ao crescimento explosivo das ocupações da informática, dos escritórios, da área de saúde, de serviços pessoais e da indústria do lazer, do turismo, da hospitalidade e da instalação e manutenção de miríades de equipamentos. Portanto, não se trata de menos anos para as velhas ocupações, mas de novas ocupações requerendo menos tempo de estudo.

Não podemos nos esquecer das oportunidades que cursos curtos oferecem aos novos perfis de alunos que estão terminando o curso médio. Nos Estados Unidos, apesar de os Estados garantirem vaga em cursos superiores de quatro anos a todos os residentes, uma ampla maioria prefere a alternativa de dois anos. O mesmo acontece na França.

As primeiras pesquisas no Brasil com cursos para tecnólogos e seqüenciais mostram que sua clientela é de alunos trabalhadores que buscam novas oportunidades pessoais e profissionais. Ou seja, estão oferecendo uma alternativa mais curta, mais barata e mais apropriada a sua situação de vida e preferência pessoal. Afinal, educação permanente é isso, é para toda a vida. O mesmo está começando a acontecer com o novo técnico pós-médio – em que já existem parcerias do Ministério da Educação com a Central Única dos Trabalhadores. Segundo o representante da Força Sindical no Fórum Nacional do Ministro Reis Velloso (de 2002), agora a classe operária tem acesso aos cursos técnicos, pois não são mais monopolizados pelos ricos.

Mas as conquistas não são tranqüilas e definitivas. Há ameaças de vários lados. Umas por conservadorismo, outras para preservar reservas de mercado. Algumas associações de classe tentam defender seus feudos no tapetão da lei. Outros sonham nostalgicamente com uma universidade de pesquisa para todos, como se em algum país fosse assim. Para esses, oferecer diplomas ao cabo de dois anos é abastardar o ensino superior, sacrilégio imperdoável. Em sua cabeça não entra a idéia de que superior é tudo que vem depois do médio, incluindo a preparação para muitas ocupações novas ou que se transformaram.

* Claudio de Moura Castro é economista.


Um comentário:

  1. Oi Moacir, sou Guilherme do Blog "Espaço do Tecnólogo", fico feliz que goste do blog. Também estou a inteira disposição caso queira trocar qualquer informação, acho importante nós, tecnólogos, nos unirmos para divulgar mais essa formação.

    Também gosto muito do seu blog, por isso o sigo, e se me permite vou incluí-lo na lista de sites recomendados do blog. Abraço.

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