segunda-feira, 2 de maio de 2011

Motivação: use com moderação


Por Rafael Chiuzi

A motivação é objeto de estudos de diversas áreas científicas atualmente. Oriundo do campo da psicologia este fenômeno virou elemento de cobiça de várias áreas do saber ligadas às organizações. Desde Abraham Maslow com a hierarquia das necessidades e McClelland na década de 60, Fredrick Herzberg com os fatores higiênicos e motivadores em 1968 e Bandura (1982) com a teoria da auto-eficácia, os gestores de organizações vêm caçando uma aplicação prática (e lucrativa) deste conceito.

Desde então, os chamados “gurus”, na falta de uma denominação melhor (mais completa), engordam suas contas bancárias com palestras a preço de ouro teatralizando a fantasia pueril de que vão motivar os funcionários de qualquer organização do mundo a qualquer preço (desde que seja pago à vista). Logo a motivação vira um commoditie, vendido, negociado, emprestado e aplicado por alguns falsos profetas dotados de boa oratória e presença de espírito. Fato este que me motivou a escrever este artigo.

Mas a motivação não é algo bom? Claro que sim, caso contrário não conseguiríamos levantar de nossas camas pela manhã! O que não é bonito de se assistir é uma legião de empresas tentando motivar a qualquer custo seu “capital mais precioso” - o funcionário (que algumas empresas, mesmo extremamente ditatoriais, insistem em chamar de colaborador), idealizando a figura de um trabalhador perfeito, que não toma cafezinho, que não vai ao banheiro, que não sai mais cedo (sempre mais tarde) e que acima de tudo não reclama – porque é um funcionário motivado (ou um cyborg digno de filmes de ficção científica).

Ora, por favor, nosso bom senso está cada vez mais adormecido  e opaco, porque vivemos num mundo real, onde pessoas reais têm empregos reais com desilusões amorosas, desilusões no trabalho ou mesmo num mundo onde simplesmente acordamos de mau humor – será que não é mais permitido estar de mau humor? – cuidado com a advertência! Mau humor pode ser sinal de desmotivação, e esta palavra já é sinônimo de heresia nas principais organizações mundo afora.

Esquecem-se de que muitas vezes o trabalhador não precisa levar uma injeção de motivação a cada trimestre – sim, porque a palestra motivacional é uma injeção, com prazo de validade, contra indicações e tudo mais! E assim como toda injeção, pode se tornar um incômodo gigantesco para alguns tomá-la periodicamente, uma via-crúcis.

O indivíduo que leva o sobrenome da organização personificado em sua existência agora vira espectador de um show de horrores, onde o ator principal é ele, porém, no sentido negativo - como negativo? Ora, pegam o indivíduo, colocam-no em um auditório e o fazem escutar por 50 ou 60 minutos tudo o que ele poderia ser, e não o é, tudo o que ele deveria fazer, e não faz. Impinge-se desta maneira um dolo que até então ele não trazia consigo, mas que agora pode ter certeza será incorporado no cotidiano do trabalho.

Tem-se desta maneira um efeito iatrogênico nestes trabalhadores, que agora possuem uma cartilha sobre o que fazer e o mais impressionante – Como Estar! Esquecem-se de que estamos falando de seres humanos, seres de desejo contínuo e que precisam ser assim porque esta é a condição psíquica básica do ser humano - estamos sempre querendo algo.

A fantasia onipotente é a de que o funcionário entra na palestra desmotivado e sai motivado (e sabendo como motivar os outros) como numa linha de produção digna de Charles Chaplin em “tempos modernos” - claro que com a desvantagem de sair de lá com uma culpa que o aniquila por dentro,  porque agora o responsável por não ser motivado, ou por não motivar a equipe é toda dele... Do trabalhador.

A situação é cômica se não fosse trágica no sentido feliniano da coisa, temos o sujeito que é investido psicologicamente sem ao menos perguntar se ele assim o deseja. Pois bem, é aí que entram os fatores críticos! pois se este indivíduo já encontra-se numa situação onde não está nas melhores condições psíquicas ele é um sério candidato a um surto temporário. Você não ouviu falar? O fulano do financeiro pediu demissão e largou da mulher! A Gerente gritou com a equipe e saiu correndo da empresa dizendo que precisava de ar!

E assim, sem o menor cuidado continuam distribuindo injeções independente da vontade dos sujeitos, contribuindo para que estes entrem desmotivados e saiam imbuídos numa fase maníaca que pode durar semanas ou meses (dependendo do prazo de validade da injeção e da condição psicológica destas pessoas) fase esta que pode acarretar em seqüelas relativamente severas para o resto de sua vida profissional e pessoal.

Muitas vezes é exatamente o sentimento que possuímos de sermos invulneráveis que é exacerbado em programas motivacionais. Teóricos dizem que todos nós temos um senso de invulnerabilidade (Chiuzi, 2008; Siqueira, 1995; Bulman & Frieze, 1985) ou seja, uma idéia de que eventos ruins tendem a acontecer com outras pessoas, mas não conosco. Pois bem, o efeito de um programa de motivação intenso tem a capacidade de potencializar este senso, fazendo com que este trabalhador saia de lá crendo ser capaz de tudo, tudo! E é irônico que são exatamente os motivados (sem as menores condições) que acabam cometendo o maior número de erros prosaicos e frívolos, sendo conseqüentemente demitidos em razão disso pela própria empresa que arcou com os custos da “motivação” dele.

A frase de ordem na atualidade é “Você pode!”, mas será que alguma vez param para perguntar “Você quer?” creio eu que nunca, porque sempre temos a crença de que sabemos o que é melhor para o outro, porém, em contrapartida ironicamente nunca sabemos o que queremos ou mesmo o que precisamos.

E assim segue a vida o funcionário motivado (com um motivo para a ação disse um guru em uma palestra que assisti certa vez), porém, o motivo nem ele mesmo sabe na maioria das vezes, o motivo é algo externo, algo análogo à carga que é colocada no lombo dos animais para o transporte – ora, já que o mundo organizacional venera metáforas que comparam pessoas à animais (gansos voando, ratos e seus queijos e muitas outras) porque não comparar este funcionário à um animal de carga? Chocante sim, inverdadeiro não.

Pensem bem, o burro de carga não sabe porque está carregando aquele peso extra, ele está carregando porque ele PODE! Porém, também sabe que se não o fizer vai pagar o preço (podem ser algumas chicotadas), mas é claro que nós, seres humanos, somos muito mais espertos e civilizados, dotados de inteligência e capacidade analítica. Tenho certeza de que em uma empresa onde o trabalhador que não fizer o que lhe foi ordenado não sofrerá represálias de nenhum tipo – às vezes a ironia pode ser muito educativa não concordam?

Bom, vou encerrando este texto porque senão começo a ficar desmotivado... E nós não queremos isso não é? Pois bem... Se você é um trabalhador e leu este texto, a mensagem que gostaria de lhe deixar é: Pense bem sobre a motivação, reflita! Mas se você é um gestor, administrador, gerente ou apenas chefe mesmo, e é responsável por uma equipe de pessoas a mensagem é: Pense bem sobre a motivação, reflita! Me despeço aqui e até a próxima vez.

FonteRafael Chiuzi 

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